O agricultor Renildo Francisco Marques, de 51 anos,
comemora o aumento das margens da Barragem Oiticica. “As águas chegam até lá no
horizonte. É lindo”, relatou. Inaugurado em março do ano passado, em Jucurutu,
no Seridó potiguar, o segundo maior reservatório hídrico do Rio Grande do Norte
ultrapassou, nesta segunda‑feira (20), a marca de 61% de sua capacidade total,
superando 456 milhões de metros cúbicos.
Oriundo de uma família de agricultores da zona rural de
Jucurutu, Renildo testemunhou, nos últimos meses, o crescimento da barragem. Ao
contemplar a atual fartura do reservatório, ele recordou as dificuldades para
conseguir água a fim de abastecer a casa e a área onde planta feijão. “A
barragem veio no momento exato. A gente estava precisando demais. O povo daqui
sofria muito com as secas. Sem abastecimento regular, minha família retirava
água salobra de um poço. Quando não, a gente dependia do caminhão‑pipa. Era um
sofrimento”, relembrou.
De acordo com o Governo do Estado, o aumento do volume está
associado às chuvas registradas nos últimos meses. A governadora Fátima Bezerra
visitou o Complexo Hidrossocial Oiticica nesta segunda-feira. Antes de chegar à
barragem, ela vistoriou a nova pista de acesso ao reservatório – com 5,8
quilômetros de extensão, que se encontra totalmente asfaltada e sinalizada.
“Isso aqui é segurança hídrica na veia para as gerações presentes e futuras. É
uma barragem que traz, além do abastecimento humano, o desenvolvimento para a
agricultura e a piscicultura. O turismo também é extremamente beneficiado por
essa paisagem sertaneja”, destacou.
Ainda segundo a governadora, a estrutura é uma das maiores
obras de recursos hídricos da história do Rio Grande do Norte. “A Barragem
Oiticica é uma das maiores conquistas, do ponto de vista de cidadania e de
dignidade, para o povo do Seridó, quando se trata de segurança hídrica. Agora,
enfim, temos a estrada de acesso de primeira qualidade, as agrovilas e este
mirante belíssimo. Isso nos dá uma felicidade enorme, porque, repito, isso aqui
é dignidade, é cidadania”, afirmou.
Dados recentes indicam o crescimento contínuo do volume
armazenado. Em fevereiro, o reservatório acumulava 110,3 milhões de metros
cúbicos, o equivalente a 14,86% de sua capacidade. Em março, o volume chegou a
168,7 milhões. Em abril, houve um avanço para 371,7 milhões (50,06%), seguido
de 430,7 milhões (56,6%) e, mais recentemente, de 456 milhões de metros
cúbicos, atingindo a marca de 61%.
O secretário estadual de Recursos Hídricos, Paulo Varela,
explicou que a Barragem de Oiticica tem capacidade total de 742 milhões de
metros cúbicos e pode atender até 2 milhões de pessoas. Ele comentou que o
volume atual está dentro das expectativas. “Está tudo dentro do cronograma.
Isso significa não somente água reservada, mas uma água que propõe
desenvolvimento. É água que vai se tornar renda, leite, queijo, turismo e
mineração — ou seja, desenvolvimento. Uma coisa é fato: o Seridó jamais ficará
sem água de hoje em diante. Sempre terá água reservada aqui na Barragem de
Oiticica, inclusive porque conta com a garantia da transposição do Rio São
Francisco”, pontuou.
O reservatório foi concluído após 12 anos de obras, com a
participação de 249 trabalhadores. Ao todo, cerca de 294 mil pessoas em 22
municípios são diretamente beneficiadas. O investimento total foi de R$ 893
milhões, incluindo R$ 161 milhões oriundos do Novo PAC. O projeto da barragem
englobou ainda o reassentamento da comunidade de Nova Barra de Santana e a
criação de agrovilas em municípios como Jucurutu, Jardim de Piranhas e São
Fernando.
Segundo Procópio Lucena, diretor‑presidente do Igarn, os
volumes de água que estão se acumulando em Oiticica provêm de duas origens
principais: as chuvas captadas por rios, riachos e córregos, e as águas do
Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF). “Nós recebemos 3 metros
cúbicos por segundo passando pela divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba.
No ano passado, recebemos 78 milhões de metros cúbicos de água. Neste ano, já
recebemos em torno de 28 milhões”, detalhou. E complementou: “Essas águas,
portanto, estão aqui dentro. É uma junção da água endógena, oriunda das chuvas
e da própria natureza, com as águas que vêm do São Francisco. Elas percorreram
440 quilômetros para chegar até aqui e estão somadas, gerando sinergia e
produzindo felicidade, desenvolvimento, dignidade, emprego, renda e segurança
alimentar”.
Sobre o surgimento de vegetação na superfície do lago com
as chuvas recentes, Lucena explicou que a situação já era prevista: “Essa
proliferação vegetal está acontecendo no Nordeste inteiro. São as chamadas
‘baronesas’, plantas aquáticas que se desenvolvem em ambientes com muita
matéria orgânica. As águas descem e vêm trazendo esses resíduos, que também têm
relação com o uso de esterco animal nas margens dos rios. Então, tudo isso
acaba chegando aqui dentro do reservatório”, encerrou.